Dec 12, 2025
12.12.2025
Bruna Togni (Creative Manager and Trend Researcher ) e Thales Ferreira (Co-Founder and Executive Director)
correndo contra o tempo?
Talvez o tempo que você precise não esteja no ponteiro do relógio.
BT: Então tá, falar sobre o tempo?
TF: Acho que a gente pode começar assim. A gente já teve alguns encontros prévios. Acho que esse é o nosso terceiro encontro. Então, a primeira coisa que eu notei nesse processo é que a gente teve tempo para fazer.
BT: Sim, total. Ao mesmo tempo, acho que eu tava com a sensação de que a gente tinha tido mais encontros, mas então passou diferente para mim e para ti.
TF: Hum. É porque eles foram proveitosos. É verdade. Porque saiu muita coisa disso, muito mais coisa disso do que a gente vai conseguir ter tempo para pôr aqui.
BT: Uma coisa que a gente também falou nessas conversas é como a gente enquadra esse tempo, ou como a gente escolhe olhar para ele porque tempo é muita coisa para falar em pouco tempo.
TF: Exatamente.
[Editando essa newsletter, vimos o quanto precisávamos de mais tempo mesmo. Então, vamos abrir aqui uma conversa paralela, acontecendo neste tempo presente.]
BT: E o início da nossa conversa partiu de uma pergunta bem básica: como tu me contaria sobre o teu dia? A primeira coisa que vem à mente é “eu acordo, aí eu passo meu café, depois eu começo a trabalhar, daí eu almoço” sempre nessa ordem.
TF: E por que a gente conta nessa ordem, né? Eu posso te contar que eu tomei café, trabalhei, almocei, fiz yoga e fui dormir. Mas o yoga foi a melhor parte do meu dia. Eu poderia te contar que fiz yoga e trabalhei, eu poderia te contar de uma forma não cronológica. Mas esse é o primeiro tempo que vem à nossa cabeça. Nasci, cresci, morri, mas essa não é a única maneira de olhar pro tempo.
BT: Sim, como a gente, ocidentais, enxerga o tempo como uma linha reta lógica. Em vez de começar pela yoga, que é o melhor momento do dia, a gente começa por uma ordem linear até chegar nela. Mas quando a gente pega culturas quilombolas, por exemplo, o tempo não é uma linha reta; ele é circular. O Mestre Nego Bispo, um líder quilombola, falava sobre memória ancestral, que é o tempo circular, e a memória sintética, o tempo linear. Ele falava de um tempo que era sobre começo, meio e começo, não começo e meio e fim. É uma visão muito interessante porque também muda o peso que damos pra finitude. É um novo começo.
TF: Isso muda completamente uma lógica de vida. De como enxergamos as coisas, os momentos, os lugares e nós mesmos, né? E qual é a nosso tempo hoje?
[Falamos sobre isso nesse post de 2024. Outros tempos. Mas não tão outros assim, no final.]
BT: Então, na mitologia grega existe um mito sobre Chronos, o Deus do tempo linear, ou seja, aquele Deus que consome tudo à sua frente. Inclusive, na mitologia, ele consumia a própria prole. Esse tempo é conhecido como o tempo cronológico, o que é mensurável, quantitativo.
TF: O tempo do ponteiro do relógio que todo mundo conhece e que mais impera sobre a gente hoje em dia.
[Em uma dessas conversas, percebemos que esse tempo constantemente nos informa que o estamos matando, gastando ou perdendo. Nessa corrida contra ele, tentamos o tempo todo “to keep time”. E, pra isso, precisamos fazer sua gestão e sua administração porque, no fim, assim como um capital, queremos investi-lo. (Qualquer similaridade com termos corporativos e financeiros não é mera coincidência.)]
BT: Mas também existe outro tipo de tempo nessa mitologia: o tempo Kairológico. Nesse mito, Kairós era um outro deus mais jovem, mais leve. Ele tinha asas nos pés, um cacho de cabelo na testa e a nuca careca. Ou seja, pra aproveitar aquele tempo, era preciso estar preparado pra agarrar aquele cacho, aquela oportunidade única que só se aproveita quando a gente presta atenção no que está fazendo.
“O tempo cronológico é importante porque dá estrutura pra vida. O Kairológico dá significado pra essa vida.”
TF: E essas duas visões de tempo são, na verdade, complementares. Elas não são visões de tempo opostas.
BT: Verdade. O tempo cronológico é importante porque dá estrutura pra vida. O Kairológico dá significado pra essa vida, né?
TF: Nesse sentido, uma das coisas que mais ficou na minha cabeça das nossas conversas foi a noção de tempo com perecibilidade. Início, meio e fim. Não sei explicar o porquê, mas eu ficava falando “1, 2, 3, 4” e “4, 3, 2, 1”.
BTi: Sim. Uhum. O Nassim Taleb fala no Antifrágil que, para o perecível, cada dia adicional de vida se traduz em uma expectativa de vida adicional mais curta. Pro não perecível, cada dia adicional pode significar uma expectativa de vida mais longa. E, nesse sentido, o único juiz eficaz das coisas é o tempo. E aí fico pensando: o que seriam essas coisas perecíveis e não perecíveis?

TF: Fico refletindo sobre como o ser humano se encaixa nisso porque somos perecíveis biologicamente [nossa existência é finita e essa contagem vai chegar ao zero, eventualmente]. Quando somos jovens, pensamos nesse tempo como não perecível, mas depois de uma certa idade, começamos a encarar a finitude. Essa noção de perecibilidade do tempo é muito interessante quando a gente relaciona com o Efeito Lindy, trazido por Taleb, que fala sobre coisas que resistem ao tempo, se tornam eternas, têm um legado e são memoráveis, sabe?

BT: E isso vale pra nós, humanos, mas também pra lugares, culturas e até marcas que padecem ou permanecem, né? E essa perecibilidade tem muito a ver com como a gente enquadra esse tempo. E se percebêssemos esses lugares, culturas, marcas mais “kairologicamente”? Como experiências [de vida, de marca] mais atentas e presentes. Assim, a gente pode, de alguma forma, eternizar o que antes poderia simplesmente perecer e ser devorado pelo tempo.
“Quando somos jovens, pensamos nesse tempo como não perecível, mas depois de uma certa idade, começamos a encarar a finitude.”
TF: Exato! Uma coisa com mais tempo também tem mais significado. As pessoas podem pensar que ficaram mais velhas e realmente ficaram, mas por que isso é ruim? Esse conceito de stillness, do que permanece ao longo do tempo, é muito bonito. Por isso, acho lindo quando encontro marcas, como, por exemplo, Santa Maria Novella, que é de 1221. Eu comprei uma aguinha de menta dessa marca e fiquei fascinado; era como se eu estivesse comprando uma coisa preciosa. A Trudon é outra marca que, desde 1643 resiste ao tempo também.
BT: Aham! Marcas de um outro tempo e período histórico existindo e resistindo aos tempos de hoje. É sublime.
TF: No Brasil, a Granado, por exemplo, é uma marca super antiga e consegue se atualizar. Ela resiste e a coisa mais bonita é você pensar, de fato, há quanto tempo ela existe. Pra mim, essas coisas, esse lastro de história, têm um valor muito grande.

BT: A gente tá tão louco por esse tempo instantâneo que parece, muitas vezes, que esse lastro não importa mais, né?
“A memória, inclusive, é o que nos ajuda a articular esse presente. É o que também dá lastro pra uma marca.”
TF: Pois é. Quando a gente compra de uma marca que tem muito tempo de existência, é como se a gente pudesse comprar um pouquinho algo que a gente não vai conseguir ser, algo não perecível.
BT: Humm. Bom ponto. E acho que um dos fatores que ajudam a tornar tudo isso eterno é nosso modo de ver. Pensa: quando a gente para pra contemplar, pra estar ali presente, estamos constituindo memória, que é o que faz as coisas perdurarem, resistirem. É o que ajuda a criar a história. No fim, somos feitos mais de memórias do que de presente, né?
TF: A memória, inclusive, é o que nos ajuda a articular esse presente. É o que também dá lastro pra uma marca.
BT: Como viver o tempo qualitativamente muda as coisas. A gente pode simplesmente tornar pequenas coisas não perecíveis com a nossa vivência e percepção sobre elas. Um exemplo disso [que eu amo e que ficou nas nossas cabeças nas conversas] são as 72 microestações do Japão, uma subdivisão tradicional do calendário japonês.
TF: Ai, eu amo isso.
BT: Elas são divididas cronologicamente, sim. Então, temos lá uma primeira divisão em 24 estações e cada uma dessas estações é, então, dividida em três microestações, totalizando 72 períodos de aproximadamente 5 dias cada. Mas o que é legal disso é que eles observam o que acontece nesse tempo, os momentos únicos e qualitativos. Ou seja, em vez de dizer “início de fevereiro”, falam “vento leste derrete o gelo”. Em vez de “começo de maio”, dizem “quando os sapos começam a cantar”.
TF: É muito linda essa forma de ver.
BT: Tem até uma influenciadora no Instagram que posta basicamente isso: as 72 microestações japonesas.

TF: Ah, mentira! Tem aquela do YouTube que você me mostrou, que faz tudo, que eu fiquei maravilhado. Ela certamente vive em outro tempo. Vamos colocar nos links abaixo.
[E vive mesmo. Nós somos completamente obcecados pelos vídeos da Li Ziqi. O tempo dela é outro e o olhar dela sobre esse tempo também.]
BT: É lindo, né? Esse tempo é o que nos faz sentir tocados por essa finitude, mas ao mesmo tempo faz a gente querer parar nele.
“Como viver o tempo qualitativamente muda as coisas. A gente pode simplesmente tornar pequenas coisas não perecíveis com a nossa vivência e percepção sobre elas.”
TF: Sim! [comecei a rir aqui, mas vou explicar] Eu tô rindo porque, às vezes, um amigo pergunta para mim que horas a gente vai sair, né? E eu falo “ao cair da noite”. A pessoa sempre dá uma risada, mas eu realmente quero sair ao cair da noite, não sei que horas. “Que horas vamos jantar?”. Vamos jantar ao cair da noite.
BT: Hahahah. Eu amo. É muito fascinante, né? Quando a gente se descola do tempo cronológico.
TF: Verdade. Então, já que a gente tá com tempo: qual é o seu livro preferido?
BT: Ah, eu tenho dois que logo me vêm à mente.
TF: Conta.
BT: Tem um que eu diria que resistiu muito ao meu tempo, que li e reli várias vezes desde mais jovem, que é o “Sidarta”, do Hermann Hesse. E o outro é o “Modos de Ver”, do John Berger. Um xodozão hahaha.

TF: Uhum! Eu comprei esse por sua causa.
TF: Você imagina que o Hermann Hesse foi eternizado por esse livro ou pelas obras dele? Eu te perguntei sobre o seu livro para poder falar da minha visão, das duas coisas que nós, como seres humanos perecíveis, poderíamos fazer para ter um tempo com maior valor. A primeira é, obviamente, criar algo que nos torne mais “imortais”, como Hesse fez. Ele, de certa forma, ficou “menos perecível” por escrever essa obra, né?
BT: Exato. Toda vez que eu leio essa obra, eu lembro dele e, de certa forma, evoco ele e o próprio momento de escrita dele.
TF: Esse é um ponto. O segundo ponto é sobre a gente conseguir contemplar o tempo presente. Uma vez eu tava com as minhas sócias, Bia e Catha, em [De repente, esqueci o nome da cidade, acreditam? Nada como um bom tempo pra editar essa newsletter depois] Antibes. A gente tava subindo uma rua que era a rua mais linda que eu já tinha visto. Era uma mini rua, com muitas árvores. Muito lindo. Aí, a Bia falou: “Olha que rua linda”, e voltou pro celular, e a Catha também. Eu falei: “Não, gente, vamos prestar atenção. Vamos subir nossa rua prestando atenção porque essa beleza nos aproxima do divino do que do mundano.”
BT: Uhum. Nesse mundo das coisas (pra fazer, pra produzir), a gente não consegue, muitas vezes, enxergar os significados. Isso vem com a contemplação, com a presença. Sob o ritmo do nosso próprio tempo e não sob o tempo ilusório e sintético que é ditado pelo relógio.
TF: É esse tempo da contemplação, o tempo de olhar pras coisas e sentir que você se aproxima do sublime. Longe dos deadlines, da hiperperformance da entrega. Com certeza, essa newsletter não é para dar muitas dicas para ninguém. É mais para trazer uma reflexão. [mas aqui, acabamos decidindo que traríamos dicas kk] Talvez uma das possíveis dicas seja prestar mais atenção e contemplar um pouco mais. Isso faz nosso tempo valer e durar mais.
BT: E o quanto não fazemos disso também um ritual. Não é uma newsletter de dicas, [talvez uma que outra, no fim das contas] mas, se eu pudesse falar alguma coisa nesse sentido, é como podemos pensar mais nesse tempo enquanto um ritual, que envolve modos de ver.
TF: Sim!
BT: Tem uma frase do Byung-Chul Han, no livro “O Desaparecimento dos Rituais”, que cabe bem aqui. Ele fala que o ritual é o que estrutura ou “mobilha” o tempo e que esses rituais são pro tempo o que um lar é pro espaço, ou seja, os rituais são o que torna o tempo habitável.
TF: Sim. É lindo isso. E você, como você torna seu tempo habitável? [você, leitor mesmo]. Pode ser uma pergunta macro, que talvez não tenha nenhuma resposta, mas que é de se pensar. Foi muito esse processo que a gente passou nesses encontros prévios.
TF: O filme Perfect Days, do Win Wenders, é um exemplo perfeito disso. O Tokyo-Ga, um documentário que ele fez em 82 sobre uma viagem pro Japão também. Esses filmes falam muito sobre contemplação. Eu olho para esse documentário e saio com tanta vontade de habitar o tempo como ele habitou.

BT: Sim. Saímos com vontade de rever esse tempo com outros olhos e outras lógicas. O momento oportuno se revela quando prestamos atenção.
TF: Saímos com dois filmes, um documentário e um filme do mesmo diretor, meu preferido, e livros para aprendermos a habitar melhor nosso tempo.
BT: Tem uma frase que a gente ama, do livro Modos de Ver, que fala: “Só vemos aquilo para que olhamos. Olhar é um ato de escolha.” E eu acho isso muito incrível. Olhar de verdade, contemplar e tornar o tempo habitável.
TF: Acho que foi lindo esse processo. Eu amei essa conversa entre nós três: eu, você e o tempo.
BT: Eu também. Já deu nosso tempo hoje, mas diria que chegamos em tempo também; de fechar 2025 experimentando habitar um novo tempo. O nosso tempo. Vamos tentar, né? E o tempo dirá.
[Sugerimos terminar essa news ao som de Memórias, da Rosalía com Carminho, pra seguir pensando no tempo, com carinho, habitando-o, pelo menos por esses 4 próximos minutos.]