Todos os dias, somos expostos a uma carga absurda de informação. Cada notificação que pisca na tela é um tijolo a mais no muro que separa a gente de nós mesmos. Imagens, áudios, vídeos, abas abertas, pop-ups, notificações pendentes. O tempo todo. De todos os lados.

Pesquisadores da Universidade de Londres descobriram que a sobrecarga informacional pode reduzir o QI em até 10 pontos. Isso é mais do que o uso de maconha, que provocou queda de 4 pontos no mesmo estudo.

Cardiff University, 2019

Com tanto estímulo ao redor, será que conseguimos dar significado a tudo isso?

 

Nascida não só da quantidade de informação, mas da ausência de digestão, a crise de sentidos é estar diante de tanto, o tempo todo, sem conseguir processar, filtrar ou atribuir sentido real ao que vivemos.

A palavra “sentido” carrega uma polissemia interessante e até irônica para descrever essa crise. Sentido é vivenciar emoções, percepções e estímulos que nos atravessam. Mas também é o significado que damos às nossas experiências, a forma como organizamos e interpretamos o que vivemos.

A crise que vivemos nasce justamente dessa colisão: sentimos cada vez mais, mas conseguimos dar cada vez menos significado ao que sentimos. Isso porque sentir não gera necessariamente sentido. Ele depende de um processo de racionalização e pensamento crítico, que, paradoxalmente, estamos tentando otimizar ao máximo.

E é isso que torna a situação ainda mais preocupante: diante dessa avalanche, não desaceleramos para sentir com mais calma nem selecionamos quais estímulos absorver. Terceirizamos para otimizar e abrir espaço para mais estímulos. Pedimos ajuda para tecnologia, para ferramentas automáticas, para curadorias alheias. O resultado é a perda gradual da nossa autonomia cognitiva, emocional e sensorial.

“A conveniência do uso de sistemas automáticos vai matar a agência humana.”

Miguel Nicolelis, médico e cientista brasileiro

 

Quando subcontratamos nossa mente para sistemas digitais, quando toda dúvida vira pergunta ao Gork, ao ChatGPT ou ao feed, nosso cérebro entende o recado. Ele consome 20% da energia do corpo e, ao perceber que não precisa raciocinar tanto, começa a desligar funções. Aos poucos, esquecemos como pensar por conta própria.

Figura incluída no paper do MIT, que ilustra a dinâmica cerebral comparada entre grupos que realizaram a mesma tarefa usando diferentes estratégias: LLM (ChatGPT), Search Engine e apenas o cérebro.

Essa atrofia cognitiva já está sendo medida. Pesquisa do MIT mostrou que usuários de ChatGPT tiveram 54% menos conectividade cortical do que quem fez a mesma tarefa sem IA — menos reflexão, mais no automático.

Estamos, como diz Nicolelis, na bengala: delegando tanto que deixamos de participar do processo de racionalização. Capacidade esta que transforma o que nós sentimos em sentido. E longe de ser um pessimismo tecnológico, é importante reconhecer o potencial da IA para otimizar tarefas e liberar tempo para o que realmente exige criatividade humana. O ponto crítico está na dependência: entregar demais à tecnologia pode enfraquecer nossa capacidade de dar sentido às experiências. Saber quando e como usá-la é o que mantém nossa autonomia cognitiva, emocional e sensorial viva.

A reportagem da Dazed mostra como o Chat GPT está sendo usado para interpretar sonhos, explorando simbolismos, autoconhecimento e os limites da IA em experiências pessoais.

Por exemplo, será que realmente precisamos de um chatbot de IA para interpretar nossos sonhos? Algo tão pessoal que depende dos nossos sentidos e vivências para dar significado ao subconsciente. Uma experiência rica, que explora medos, desejos e conflitos internos, mas que também mostra como terceirizamos processos que exigem reflexão.

Parece que, hoje, dar significado ao nosso redor tem se tornado cada vez uma tarefa sofisticada, complexa e profunda. E talvez até um luxo.

O artigo “Thinking Is Becoming a Luxury Good” questiona como a capacidade de concentração e de pensamento profundo, que sustentou ciência, democracia e liberdade, começa a se tornar um privilégio.

Assim como a junk food criou uma epidemia de obesidade, estamos sendo treinados para o fast-food cognitivo: uma dieta digital de memes, vídeos curtos, feeds infinitos e slop content gerado por IA que ameaça transformar o pensamento profundo em uma prática rara, colocando em risco uma sociedade que já não pensa a longo prazo, entregue às vibes e aos demagogos.

 

Uma desconexão interna. Mesmo hiperconectados, estamos perdidos. Ficou mais difícil entender o que realmente importa, o que seguimos, qual é a nossa narrativa pessoal no meio do caos. Essa sobrecarga não fica só no campo abstrato da mente: ela se manifesta nos nossos gestos e expressões.

Um exemplo é o Gen Z Stare: a expressão que virou debate no digital que descreve um comportamento entre jovens, um olhar vazio, fixo e sem reação durante interações sociais cotidianas.

“Esse olhar parado pode expressar cansaço, sobrecarga emocional ou até uma tentativa inconsciente de se proteger. É como se dissessem com os olhos: ‘Me deixa respirar’. Não é que não estejam sentindo nada, é que estão sentindo demais. A ausência de expressão pode ser uma pausa psíquica diante do excesso de estímulos”

Artur Costa, professor da Associação Brasileira de Psicanálise Clínica.

Cronicamente online, cronicamente estimulados, cronicamente perdidos. E qual tem sido a maneira de lidar com essa crise de sentidos?

Alguns buscam sentido através de ferramentas que vão da IA ao místico. De usar ChatGPT como terapeuta até consultas de mapas astrais e tarot, não como verdades absolutas, mas como espaços simbólicos para refletir, interpretar emoções e tentar dar significado à própria vida.

Outros simplesmente se entregam aos estímulos, absorvendo tudo sem reflexão, em um mundo onde autenticidade já soa quase como algo irreal e estéticas mudam tão rápido que mal temos tempo de perguntar se realmente gostamos. O “gosto pessoal”, que exige contexto e reflexão, tornou-se mais uma das coisas terceirizadas. E quando não conseguimos mais reconhecer, definir ou dar significado ao que realmente nos pertence, sobra apenas encenação: a performance, palavra do momento.

Que foi materializada através da caricatura mais comentada do digital: o performative male. Homens que encenam feminismo, sensibilidade e cultura pop-progressista para atrair, mas sem profundidade. De matcha a tote bags e fones com fio, tudo se torna estética calculada.

TikTok que satiriza o “Final Boss” do performative male, exagerando a estética e os gestos performáticos.

Mais que uma piada de TikTok, o fenômeno é um sintoma da crise de sentidos: quando “ser você mesmo” perde significado, sobra apenas performar. E até ironizar o comportamento performático se transforma, por si só, em uma performance.

 

Na crise de sentidos, uma coisa fica clara: cresce a necessidade de mediação e de interpretação do mundo ao nosso redor. O futuro talvez não seja sobre maximizar opções ou apresentar mil perspectivas, mas sim sobre contextualizar os atritos e oferecer orientação e significado de forma simples e integrada.

“Marcas icônicas representam papéis culturais — não apenas armazenam significados.”

Douglas Holt, fundador do Cultural Strategy Group, professor em Harvard e Oxford e autor de How Brands Become Icons.

 

Ser parte desse futuro exige ir além do óbvio: não basta existir, é preciso ser um catalisador de sentidos. Traduzir conexões e atritos, interpretar contextos e transformar experiências em algo que realmente importa e seja relevante.

É sobre ser um SenseMaker, termo trazido pela Dazed Studio: profissionais que decodificam sinais complexos da sociedade e transformam em movimentos e conexões cheias de significado. Mas não se trata de seguir um manual; é sobre assumir responsabilidade pelo que você conecta, pelo que você influencia, seja como marca, seja como indivíduo.

O ponto é: até onde estamos dispostos a ser mediadores ou agentes nessa crise de sentidos? Não existe receita, mas sim um desafio: olhar o caos, interpretá-lo e, talvez, criar sentido onde hoje só existe sobrecarga. A resposta pode não ser simples ou talvez nem exista, mas pode definir não só o futuro das marcas, como também o da nossa experiência como pessoas.

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