Ai… vamos falar de K-pop?

Mesmo sendo considerado um gênero musical, não necessariamente conseguimos traçar uma uniformidade sonora entre as canções. Trap, EDM, R&B, forró — tudo vira parte da salada cuja única obrigatoriedade, e não tão essencial assim, é cantar em coreano.

Quando remontamos à sua gênese, damos de cara com Seo Taiji and Boys (1992), atribuídos como os responsáveis pelo pontapé da revolução musical sul-coreana. Portando vestimentas, sonoridades e coreografias inspiradas na cultura periférica do hip hop, o trio se banhou do movimento norte-americano na intenção do novo — mas acabou esvaziando suas matrizes de luta racial, desigualdade e resistência política.

Seo Taiji & Boys ao vivo em MBC Top Music

É claro, não podemos cometer anacronismo… Se hoje o hip hop é cool, imagina trinta e quatro anos atrás. O trio ternura de Seul (e sua equipe de investidores) utilizou as ferramentas e a bagagem para atiçar uma nova possibilidade de entretenimento dentro da cultura coreana da época (com visões certas de exportação, é claro — destaque para o frequente uso de termos em inglês). Mas o fato é que esta jogada de marketing exemplifica um efeito dominó que pode nos passar despercebido no cotidiano: o sucateamento da contracultura.

 

SELLING OUT

Não me entenda errado, a música popular sul-coreana NÃO é vilã... ela nos deu o NewJeans! E também nos tirou. O que nos mostra como a mixagem cultural pode ser frutífera — e também nos render belas canções.

Mas, quando damos alguns passos para trás, podemos ver que a hiper mercantilização se empenha em extrair de movimentos culturais apenas o que lhe interessa e saturar seus visuais em perspectivas rasas. A essência, o risco, o incômodo e a recusa ficam no meio do caminho.

Chat aberto no Reddit. Se tornar um “vendido” era o maior pesadelo de qualquer artista contracultura nos anos 80 ~ 90. Ser cool era questionar.

BRASIL E OUTROS MANTOS

Se atravessarmos oceanos, vemos que o rap e o hip hop foram importados de outra América e também foram apropriados pela cultura brasileira, estruturando raízes cruciais na elaboração cultural periférica — e atingindo o mainstream anos depois.

Porém, a matriz política teve sua relevância preservada e, a partir das mesmas bases, cresceu e floresceu em projetos que apenas o país mais miscigenado do mundo poderia oferecer. Novos termos, novas sonoridades, nova aparência… Similar ao que rolou na Coréia do Sul, mas mantendo o compromisso político cultural (ao menos nos primeiros anos😵‍💫).

Rico Dalasam canta ‘Paz, Coroas e Tronos’ A Cappella para RAP Nacional

Visuais fortes invadem nosso imaginário quando pensamos em contracultura: o hippie, o punk, o hip hop, o drag… Por muito tempo, o visual foi uma ferramenta destes movimentos, como um “manto”, seccionando diferentes filosofias a serem comunicadas por vestimentas e/ou modificações corporais. Vemos agora que estes mantos, antes responsáveis por identificar uma contracultura, uma contravenção, se desmancham frente ao ritmo do comércio multinacional. O que era código de resistência tornou-se questão de desejo e consumo.

Cena final de Pink Flamingos (1972) onde Babs Johnson (interpretada pela drag Divine) ingere fezes de cachorro. Obra crucial para a consolidação de John Waters como Barão do Mau Gosto, desafiando a moral hegemônica da sociedade, usando o choque como base para questionamento. Divine porta a contravenção em maquiagens exageradas e vestimentas chamativas para a época.

Mas o fato é que a contracultura, em sua raiz, nunca foi apenas sobre uma roupa, mas sobre um elo. Uma união comunitária em prol de um ideal que questionasse os valores da sociedade do momento. Beatniks, cultura ballroom, tropicalistas (e também os citados acima, cada vez mais fetichizados pela mídia) são grupos que não apenas adotavam um visual; eles o encarnavam como um manifesto cotidiano, desafiando a norma ao semear um novo olhar, adverso à cultura hegemônica.

A busca por uma estética que materializa personalidade ou filosofia de vida se apresenta como um movimento atrasado.

Afinal, o que antes era visto como rebelde pode ser facilmente encontrado em vitrines de loja no Rio Sul.

CHAT, QUAL É A MINHA ESTÉTICA

Em seu início, a internet funcionou como um grande campo livre e fértil — principalmente por “suceder” a televisão. Indivíduos, primeiramente, uma elite com acesso, podiam compartilhar filosofias divergentes em fóruns anônimos e formar comunidades sem mediação corporativa. Era um solo propício para questionamentos contraditórios.

Entretanto, com a fiscalização algorítmica, o campo foi pavimentado. A censura sutil (shadow banning), a promoção de conteúdos não ameaçadores e a transformação de pautas em “engajamento” esfriaram o fervor que agora se esgueira nos becos do digital.

Mergulhamos, então, no tempo da inteligência artificial. A ferramenta não inaugura a alienação estética, mas a acelera em um terreno já instável. Acompanhada de perturbações identitárias — que por sua vez foram potencializadas pela pandemia da COVID-19 —, a IA pode aleatoriamente gerar símbolos sem oferecer seus significados, prometendo comunidades pré-fabricadas e transformando a angústia de não saber quem se é no consumo de quem se poderia ser.

Assim, a autenticidade se perde não por querer, mas porque foi lançada em um campo minado pela ansiedade de pertencer.

Estudo de Obrenović et al. (2024). Exposição intensa às redes sociais e maior estresse laboral estiveram associados a níveis mais altos de ansiedade, que por sua vez mediaram o surgimento de perturbação de identidade durante a COVID-19 — sugerindo que reduzir ansiedade e regular o uso de redes pode proteger a identidade psicológica.Estudo de Obrenović et al. (2024). Exposição intensa às redes sociais e maior estresse laboral estiveram associados a níveis mais altos de ansiedade, que por sua vez mediaram o surgimento de perturbação de identidade durante a COVID-19 — sugerindo que reduzir ansiedade e regular o uso de redes pode proteger a identidade psicológica.

Claro, existe uma bifurcação. A inteligência artificial pode, sim, ser aliada na preservação de repertório marginal. Mas não se pode despejar nas mãos do Robô ED a responsabilidade sobre uma cultura. A IA não vai além de uma ferramenta. Ela não é capaz de gerar fricção social.

Em um momento em que nossas ações são traduzidas em um código binário, a nossa humanidade se encontra na surpresa. No inesperado. No humano. Nós somos os agentes. Biólogos a reconstruir a natureza social. (Eu fico com a jardineira rosa!)

GO OFF TWITTER, AND GO OUTSIDE!

E agora? Sem contar com meu coturno Dr. Martens vermelho, como posso questionar o ordinário?

Bom, a boa notícia é que a contracultura não morreu! Ela apenas não se encontra do feed e não se veste mais de trajes específicos (como indica o algoritmo). Sua nova onda IS OF THE TWITTER. OUTSIDE! (ou até mesmo dentro da web, em lugares onde o algoritmo não constrói seu império). Sem a obrigatoriedade de se trajar de vestimentas específicas, ela se banha de sua humanidade e usufrui da quebra de expectativa — o que não se consegue prever em 0 e 1.

A nova contracultura se mantém autêntica; É invisível ao império digital ou tão específica e localizada que se torna não escalável e resiste à captura.

Profetas apontam caminhos, com pontos de partida periféricos (geográficos e existenciais). Se distanciam da lógica do feed, pesquisam fora do recomendado e utilizam suas vozes não necessariamente para criar uma estética “subversiva”, mas para disseminar práticas e perspectivas que desafiam e são, em si, o novo.

Caminhos para uma nova cultura:

  1. Coturno Dr. Martens

  2. Crackear o Photoshop

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