A gente cresceu estudando o Ocidente como se ele fosse sinônimo de mundo. Aprendemos a decorar datas, nomes e mapas que sempre apontavam pra cima — e quase nunca pra dentro. Só que 2026 está com uma cara muito específica: a latinidade virou centro de gravidade cultural. E, ao mesmo tempo, continua sendo tratada como uma categoria genérica — “LatAm” — pronta pra exportação.

O problema é que a América Latina não cabe em uma sigla. Não cabe nem em um idioma.

ELAS: UMA AMÉRICA LATINA NO PLURAL

Quando a gente diz “América Latina”, parece um bloco. Mas, na prática, é um arquipélago. São muitos países, muitas histórias, muitas feridas e muitas invenções — coexistindo, às vezes se abraçando, às vezes se estranhando.

E tem um dado que deveria humilhar qualquer tentativa de pasteurização: só na América Latina existem mais de 420 línguas indígenas (e, se você ampliar para América Latina + Caribe, a conta chega a cerca de 560).

Imagem por @tessvisual

Não é “diversidade” como adjetivo de campanha. É complexidade estrutural. É uma multiplicidade que não cabe no briefing.

E é aí que entra a pergunta estratégica: quando o mundo fala “latino”, de qual latinidade ele está falando?

LATINIDADE NÃO É SKIN DE IDENTIDADE

(ou: a metodologia dos cohorts como antídoto contra o “público latino”)

Tá, mas antes de qualquer coisa: o que é essa palavra que acabei de falar — cohorts?

Cohorts são microculturas vivas: grupos com códigos próprios de linguagem, estética, humor, valores, consumo e pertencimento. É uma lente pra evitar o erro de tratar um país (ou um continente) como se fosse “um público só”.

Quer um jeito bem simples de visualizar a metodologia dos cohorts? Pensa no Carnaval de rua. Não existe “o Carnaval”. Existe um ecossistema de carnavais — e cada bloco já vem com seu código embutido. O Bloco das Divas entrega pop, performance e deixa todo mundo gag. A Marcha Nerd é pra quem quer pular carnaval vestido de cosplay. Filhos de Gandhy você já vai na intenção de curtir o maior afoxé do mundo. E o “Não-monogamia gostoso demais”… bom, esse não precisa nem de contexto.

Imagem por @carolina.calcavecchia

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É isso: você não fala com todos do mesmo jeito porque não é a mesma gente — e não é o mesmo desejo. Agora imagina repetir esse erro no tamanho da América Latina inteira.

A segunda pergunta é: quem tem o direito de definir essa palavra? Porque, quando “latino” vira etiqueta global, ele pode tanto abrir portas quanto virar um atalho — um jeito “bonito” de simplificar gente demais, história demais e contradição demais.

E antes que a latinidade vire só um selo de pertencimento que cabe na bio do Instagram, vale o lembrete — com carinho e com veneno — que a Patrici Carneiro (@eypatrici) cravou melhor do que eu poderia:

“Muito feliz que você descobriu que é latina amor!
Agora só precisa deixar de ser racista, apoiar a causa indígena, amar a cultura do seu país, não defender venda de terras brasileiras pra gringo, não ser xenofóbico principalmente com quem ergueu o apartamento que você mora, ou imigrantes, não ser lgbtfobica e não querer impor uma religião colonialista nos outros latinos!”

E é exatamente por isso que falar “da América Latina” como se ela fosse um bloco único é um erro estratégico — e, muitas vezes, um erro ético. E aí cohorts deixam de ser só método e viram leitura de mundo: quando você entende os códigos, você entende disputa por território, por narrativa e por memória.

Quando a América Latina vira protagonista, não é só “o mundo olhando pra cá”. É a gente começando a recuperar o que foi apagado.

As tirinhas do Armandinho têm essa magia: são simples, inteligentes e doem de tão atuais. Eu amava quando elas apareciam nas provas da escola.

MEMÓRIA DÁ TRABALHO

O efeito colateral mais bonito (e mais sério) de uma América Latina em evidência é que a produção cultural começa a puxar um fio que ficou décadas enterrado: memória. No Brasil, isso aparece com força em O Agente Secreto, dirigido por Kleber Mendonça Filho e protagonizado por Wagner Moura, um filme que trata a ditadura e a perseguição política como matéria viva, não como “conteúdo de aula”. E tem um momento em que essa perda vira ferida aberta, quase impossível de ignorar:

                                                                                                                                                           

“sabe quando você lembra porque uma pessoa lhe conta e você cria uma memória? (...). eu tô aqui conversando com você e falando dele, mas a verdade é que eu não lembro dele. A verdade é que você lembra mais do meu pai do que eu.”

                                                                                                                                                           

O que essa fala revela não é só um drama íntimo. É um mecanismo: quando um país apaga, censura ou empurra sua história pra baixo do tapete, ele produz gerações que precisam “lembrar por relato” — e, às vezes, nem isso segura.

E mesmo sem levar estatuetas, o que aconteceu ali já é enorme: O Agente Secreto chegou ao Oscar 2026 com quatro indicações, incluindo Melhor Filme (a categoria principal, não só “internacional”) e Melhor Filme Internacional. Num prêmio ainda muito centrado no eixo Hollywood, ver um filme brasileiro disputando a categoria maior diz muito sobre o espaço que a nossa história está ocupando na cultura global, e sobre a urgência do tema. A nova categoria de Direção de Elenco também ajuda a entender por quê: é um elenco visceral, cheio de camadas e contrastes, que dá corpo a dores e perspectivas da ditadura que quase sempre ficam invisíveis.

Só que a recuperação de memória na América Latina não é só sobre ditaduras. Ela também é sobre colonização e apagamento — sobre o que foi apagado e reembalado como se nunca tivesse existido.

Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves, traz um provérbio africano que funciona como chave pra essa realidade:

                                                                                                                                                          

“Quando não souberes para onde ir, olha para trás e saiba pelo menos de onde vens.”

                                                                                                                                                         

O que eu mais amo na pesquisa de mesa é abrir uma aba e sair com um universo.As colagens da Silvana Mendes foram um dos meus achados favoritos dessa edição.

A frase se conecta com Sankofa, um símbolo da cultura Akan (Oeste Africano, atual Gana): um pássaro que segue voando pra frente, mas olha pra trás para “voltar e pegar o que foi esquecido”.

É nesse espírito que dá pra ler esse movimento de recuperação de memória na América Latina. No Brasil, ele passa pela construção literária monumental de Ana Maria, mas também por quem vem nomeando as estruturas de apagamento há décadas, como Abdias Nascimento. E passa por quem insiste que a memória não é só arquivo — é relação com a terra, com o tempo, com o modo de existir, como Ailton Krenak.

E isso não fica dentro das fronteiras. Rigoberta Menchú (Guatemala) transforma testemunho em contra-história em Me llamo Rigoberta Menchú y así me nació la conciencia. Manuel Zapata Olivella (Colômbia) costura uma epopeia afro-diaspórica continental em Changó, el gran putas. E Elicura Chihuailaf (Chile), com sua escrita mapuche em Recado confidencial a los chilenos, lembra que a “história oficial” sempre teve dono — e que recuperar memória também é recuperar a voz.

1994: Pedro Lemebel na parada do orgulho gay em Nova York.

Quando a América Latina produz cultura, muitas vezes ela está devolvendo contexto ao que foi folclorizado e humanidade ao que foi desumanizado. E isso mexe com quem sempre teve o direito de contar a história primeiro.

Mas quando a memória volta, ela volta fazendo barulho.

O MUNDO ESTÁ DANÇANDO NO NOSSO RITMO

Bad Bunny fez o show do intervalo do Super Bowl LX (8 de fevereiro de 2026) e transformou o palco mais mainstream do planeta em um debate sobre o que significa “América” — no singular — e quem fica de fora quando essa palavra vira propriedade de um país. A performance foi lida como uma afirmação cultural e política, com camadas e referências porto-riquenhas, e com participação de convidados como Lady Gaga e Ricky Martin.

E isso acontece num timing simbólico: Bad Bunny foi o Top Artist global do Spotify em 2025, puxando uma onda que já vinha crescendo e mostrando como a latinidade deixou de ser “momento” pra virar estrutura de consumo cultural global.

Enquanto isso, o Rio virou uma vitrine internacional de escala absurda — e isso não é só percepção: no Carnaval de 2026, o estado recebeu 36% de todos os turistas estrangeiros que vieram para a folia no Brasil (foram 300 mil visitantes internacionais em sete dias no país). Todo Mundo no Rio 2025 teve Lady Gaga em Copacabana, com público superior a 2 milhões de pessoas, como parte de uma estratégia da cidade de transformar entretenimento em motor econômico e imaginário global. Todo Mundo no Rio 2026 já tem Shakira confirmada para 2 de maio, mantendo a ideia de um calendário anual que disputa atenção planetária com o resto do mundo.

Da exposição Pájara, na Mooni Roma: memória e tradição costuradas entre tecido e fotografia.

O ponto não é fazer lista de “gringos olhando pra cá”. O ponto é perguntar: o que exatamente eles estão vendo quando nos veem? Porque existe um risco: a latinidade virar estética exportável sem autoria, “tempero” de campanha, ritmo de fundo, cenário exótico. E aí a gente volta pro começo: o mundo ama o que chamam de “latino”… desde que não precise lidar com a complexidade do latino real.

O SUL É PRA CIMA

O quadro América Invertida, de Joaquín Torres-García (1943), é um clássico porque faz uma pergunta simples e insuportável: quem decidiu que o Norte é para cima?

Não é só geografia. É epistemologia. É poder. Porque “pra cima” vira sinônimo de progresso, de validação, de futuro — e aí a gente passa a vida inteira olhando pra fora antes de olhar pra dentro. “Sulear” é isso: não é virar o mapa por birra; é deslocar o eixo. É lembrar que referência não é destino, modelo não é verdade universal e que o “centro” é uma convenção que dá, sim, pra redesenhar.

E tem uma frase que eu gosto de trazer pra esse mesmo lugar de conversa — dessa vez na música — porque ela diz isso com a simplicidade de quem não precisa pedir permissão pra existir: “os ventos do Norte não movem moinhos.” de Sangue Latino, de Secos & Molhados. Pra mim, essa linha é um resumo perfeito do que Torres-García desenhou: o que vem de cima pode até soprar forte, pode até querer impor direção, mas não é isso que move a nossa história por dentro.

Agora eu vou tirar meu chapéu aqui e falar de um jeito bem pessoal: Secos & Molhados talvez tenha sido a primeira banda que eu lembro de conhecer desde criança. Meus pais me colocavam pra ouvir quando eu era muito pequeno. Eu tinha o CD, escutava e aquilo me acalmava — sem entender direito a letra, sem ter repertório pra nomear nada. Hoje, olhando pra trás, eu entendo melhor: é surreal a quantidade de ritmos, melodias, timbres e misturas que existem ali. Cada faixa tem uma lógica própria, um jeito diferente de costurar instrumento, voz, corpo, teatro. Talvez fosse isso que me hipnotizava quando eu era criança: a sensação de que tinha um mundo inteiro acontecendo dentro de uma música.

E aí eu lembro do show do Ney Matogrosso no Rock the Mountain, no ano passado — e, sem exagero, foi um dos shows mais lindos que eu já vi na vida. Não só pela performance (que é um evento por si só), mas porque eu vi ali uma coisa que eu tento nomear neste texto inteiro: a inteligência da América Latina em produzir cultura. A gente não é só “influência”. A gente é tecnologia cultural.

A capa do primeiro álbum do Secos & Molhados (1973), uma das mais icônicas da história da música brasileira.

FELIZ NO UMBRAL

(sim, apesar de tudo)

No meio do caminho entre o que nos ensinaram a imitar e o que a gente está reaprendendo a reconhecer como nosso, sem pedir desculpa por existir complexo. E aí, voltando pra pergunta lá do início: sim, a América Latina consegue reproduzir cultura eurocêntrica — porque aprendeu isso na marra. Mas o pulo do gato é outro: a gente também consegue produzir (e recombinar) a própria cultura porque carrega uma quantidade absurda de códigos e microcódigos ao mesmo tempo, em escala continental, país por país, cidade por cidade.

Tadáskía, de Santíssimo (Senador Camará) direto pro MoMA com a Instalação “Projetos: Tadáskía

No fim, é isso que eu chamo aqui de inteligência: a nossa fluência é dupla. A gente sabe ler o “lá fora” — e ainda precisa decifrar a própria casa por dentro. Só que essa fluência não pode ficar confinada ao palco, à campanha, ao hit do momento. Cultura pop sozinha não muda o mundo (conversa adulta do rolê). O que muda mesmo é estrutura — e a pergunta de futuro, pra mim, é como a gente transforma esse repertório de códigos em método de desenvolvimento: em educação que não nos descola de nós, em tecnologia que nasce do território, em política pública que entende as camadas do real, em economia criativa que vira trabalho digno, em decisão que não trata América Latina como bloco genérico.

Se a memória que a gente está puxando de volta é Sankofa, então não é só “lembrar bonito”: é usar o que foi esquecido como ferramenta. Pra virar rumo. Pra virar escolha. E pra virar poder de longo prazo.

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