(Não prometo nada. Apenas divagações. Mas deixo uma dica: você não precisa ler esse texto agora no horário do almoço. Ele não vai sumir. Guarde e leia quando puder, no seu tempo, sem notificações apitando por todos os lados).

Inclusive, falando sobre o tempo:

Tenho pensado muito sobre ele. Meu analista, em toda sessão, repete que, em vez de ser tomada pela ansiedade com o tempo que corre, devo olhar para a finitude de uma forma diferente.

E então, me peguei repensando sobre beleza, realização e simplicidade em pleno início de dezembro, quando o nome do jogo é ser criativo enquanto se alcança o desempenho algorítmico. 

Quando foi que deixamos de nos importar com o que estamos vivendo no agora para estarmos sempre nos preocupando com a próxima entrega?

O TEMPO VIRA UMA LINHA DE CHEGADA INVISÍVEL E MEIO SEM SENTIDO

Jovens: envelheçam. Em sua participação no Roda Viva, Fernanda Torres resgata a famosa frase de Nelson Rodrigues e, ao viralizar com essa fala, nos leva a refletir mais profundamente sobre nossa relação com o tempo. Ela coloca que, com a maturidade, somos capazes de enxergar as coisas como mais relativas, tendo mais calma, entendendo que não dominamos o que desejamos.

Lembro também da sorte que tive ao assistir Perfect Days, o último filme de Wim Wenders, que trata o tempo de uma forma tão delicada. Desde então venho insistindo no agora, em me fazer presente na minha própria vida — e, por mais que a gente sempre repita, escute e leia sobre a importância de olhar com mais grandeza para as minúcias do dia a dia, isso nem sempre é fácil. É um seguir adiante com muita coisa acontecendo, pensamentos mil, deadlines pipocando, áudios precisando ser escutados na velocidade 2x. O que vai nos gerando uma eterna sensação de que tudo acaba sendo entregue pela metade. Nada que eu já não saiba — e, com certeza, você também — mas por que será que é tão difícil sair desse ciclo incessante de nunca nos sentirmos suficientes? De sempre buscar inventar a roda, quando, no fundo, o simples talvez fosse suficiente? 

Ou, ainda, de que nada precisava de tanta urgência assim?

Tudo está em de fato irmos questionando o modo como vemos nosso próprio tempo.  A vida se move muito rápido. E se não pararmos e olharmos com mais carinho ao redor, a gente perde. Venho mudado alguns hábitos simples como, em vez de adiantar algo no celular enquanto estou no uber, reparo nas pessoas, nos prédios, nas situações. Tenho procurado ruas novas para chegar em casa. Tomado mais sol. Lido um capítulo do livro na hora do almoço. Mas, principalmente, tenho entendido cada um desses momentos ‘só meus’ como igualmente importantes aos que passo na frente do laptop executando algo. Passei a levá-los à sério. Falar de transformar o pequeno em grandioso pode ser abstrato, mas quando vamos encaixando pequenos hábitos diferentes em meio à rotina, vamos recuperando o fôlego. 

Hirayama vive uma vida de contentamento feliz, passando seus dias equilibrando seu trabalho como zelador dos banheiros públicos de Tóquio com sua paixão por música, literatura e fotografia.

E quando esse sentimento de dezembro fica no inconsciente coletivo? É assim que o ciclo se repete. O Google Agenda de todos lotados e o seu não. E aí?

Definitivamente nenhuma experiência é individual quando se vive em dezembro

Não é apenas sobre urgência, apatia ou execução de ideias ruins — é sobre uma cultura mais ampla que construímos em torno do fim do ano. Dezembro, que antes carregava uma aura de wrap up, balanço e celebração das conquistas, agora parece dominado por FOMO no review de KPIs, big ideas mil, learnings para o próximo ano e happy hours incontáveis. Nos sentimos criativamente atrofiados e nos sabotamos ativamente.

Uma pesquisa rápida no Instagram da OUT OF OFFICE revelou que mais da metade se sente mais ansioso do que criativo em dezembro.

É a criatividade em tensão máxima com a produtividade. Para ser criativo, basta solucionar um problema. Mas, enquanto seguimos tomando decisões baseadas em medo e deixando as métricas sem intuição humana dirigirem o show, não vemos que a resposta está bem ali. E é aí que entra a autossabotagem organizacional. 

Preferimos fazer qualquer coisa do que não fazer nada. Questionamos sem sequer testar. Enlouquecemos com as falhas. Buscamos soluções complexas mesmo que ineficazes. Ignoramos a dissidência. 

Estar errado, honestamente, pode ser revigorante. Isso muitas vezes indica que você tentou algo novo ou se arriscou. Afinal, não há aprendizado sem experimentar. O grande problema de não questionar é que, ao evitar justamente a dissidência, deixamos de testar coisas novas. Sem esses testes, nem temos a oportunidade de aprender algo diferente. É aqui que a calma e a relativização, tão bem colocadas por Fernanda Torres, entram em cena. Elas nos ajudam a criar espaço para a espontaneidade, incentivando-nos a tentar e arriscar mais, sem medo do erro.

Afinal, quando aceitamos que não temos controle sobre tudo, também nos tornamos mais capazes de lidar com os resultados adversos — por incrível que pareça, o progresso não é impulsionado por mais steps burocráticos e camadas de teoria e, sim, por criar buracos e incentivar o espaço para divergência.

Não prometi respostas, mas talvez haja um caminho

Em um momento em que todos estão com medo de se desviar do status quo, proponho em irmos na direção oposta: questione, discorde e aceite a falha como parte do processo. E celebre-se.

Escrevo essa parte final em um hotel em São Paulo, onde vim para o meu primeiro set em que fui responsável pela concepção criativa do início ao fim. E deu tudo certo. Nunca me senti tão realizada após entregar um trabalho, e olha que este ano trouxe muitos desafios. Mas foi exatamente esse shift — estar totalmente ali, aproveitando, saindo da autossabotagem irracional e trabalhando o inconformismo.

Focar no que eu estava vivendo ali, naquele instante, me trouxe a consciência da enorme conquista que foi esse dia — algo que, na correria do dia a dia, poderia facilmente ter passado despercebido. Com isso, e aproveitando todo o apelo ritualístico de fim de ano, fiz um compromisso comigo mesma: deixar a pressa em 2024. E aproveitei para levar essa reflexão para o time OOO (e te convido a fazê-la também): 

O QUE QUEREMOS DEIXAR EM 2024?

“Aquele medo de falar o que pensa porque acha que é irrelevante ou que não faz diferença, mas que, para alguém, pode ser exatamente o insight ou a perspectiva que nunca tiveram.” 

Jovi Cancherini, Analista de Planejamento 

“Não só o mundo, mas eu mesma me peguei em vários momentos criando metas ou demandas que precisavam ser finalizadas pra ontem. Acho que entramos num ~surto coletivo em que tudo passou a ser sos… Isso vai nos deixando doidos e com uma sensação de que nunca demos 100% check em tudo.” 

Alexia Kronig, Coordenadora de Conteúdo

“Pra 2025, quero apenas lembrar que tá tudo bem não conseguir fazer tudo ao mesmo tempo e que nem tudo precisamos dizer sim com medo de nos decepcionar ou decepcionar os outros.” 

Raquel Euzébio, Designer Gráfica

Assim que se inova e o FOMO corporativo vai se diluindo. Se você ainda não viu nosso último post no Instagram, a OUT OF OFFICE não irá publicar em nenhuma rede social em dezembro. Não queremos ser mais um ruído na sua timeline. Aproveite para, sem pressa, fazer o seu vídeo dump de 2024 no Capcut sendo muito feliz com tudo que você construiu e conquistou até aqui. 

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